terça-feira, 13 de setembro de 2011

o negro, a dama e só.


Primeiro gole.  Garotas passam, os garçons esperam por pedidos e um negro canta num palco improvisado. Esquina pouco movimentada sem bêbados e boêmios. Na outra mesa uma senhora de uns 50 anos mancha um copo de Uísque de batom vermelho claro. As rugas disfarçadas por uma exagerada quantidade de maquiagem chamam minha atenção. Fico observando e absorvendo aquela solidão, sem esquecer que eu também estou só. Segundo gole. Ela tem olhos profundos com cílios postiços e alguma tristeza camuflada num falso sorriso que distribui a todos.
O negro para um pouco a música, ascendo um cigarro barato e cruzo as pernas, inclino meu corpo em direção à senhora e a observo severamente.  É delicioso comer cada detalhe de uma vida estranha, seus anéis em padrões de prata, sua sandália escondendo um pé envelhecido e duro como os de uma trabalhadora, uma graciosa mão segura o copo ligeiramente cheio, segurando suave como quem segura a mão de um amigo durante conversas “amigodivã”. Terceiro gole. Ela levanta, passa suavemente as mãos na bunda alinhando o vestido justo no corpo conservado e bem curvado. Ela vai embora, leva consigo os segredos que toda mulher carrega. Eu volto a minha solidão de olhos cansados (ou bêbados) e choro comigo mesmo, sem saber a razão, e sem razão nenhuma tomo o quarto e ultimo gole de minha Cuba Libre e volto a pedir outra dose, ainda estou sóbrio e minha vida não me é interessante, preciso de uma nova historia, de uma nova leitura de uma nova obra de arte da vida, de algum personagem bem lapidado como só as mãos da mais habilidosa artesã – a vida – pode criar. Mais uma dose. O Negro volta a cantar, e por ironia da solidão a canção também é triste, e só. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

pois diga...


Podia estar chovendo, o clima poderia estar bom e o vento bem que serial bem vindo, mas fazia um calor infernal o tempo era abafado e cada movimento do meu corpo custava uma valiosa quantidade de água. O corpo desidratado e o clima abissal não me fizeram recuar diante aqueles olhos. Era uma garota quase comum, com unhas bem pintadas de cor forte, sandálias de dedo e um perfume misturado a uma considerável quantidade de suor, nas mãos umas garrafas de água. Engoli seco. Avancei.
Nada é pior que uma frustrada tentativa de aproximação. Mas isso não aconteceu e chegando diante daquela garota pedi quase sem voz “você poderia me emprestar um pouco de seu tempo?”, mas pra que diabos eu desejava um pouco do tempo dela? Qual o sentido de falar aquilo quando eu queria mesmo era um bom gole de água e depois um beijo naqueles lábios comuns e sem nada de mais? Minha estupidez havia se mostrado bem elevada e adiantou-se sob minha consciência. Mas a resposta foi assim como um redemoinho de quintal, curta e repentina. “não tenho tempo algum, mas tenho água. Posso trocá-la por um beijo”. Mas óbvio que eu não caí nessa, dei meia volta e fui embora. Onde já se viu? Só podia ser brincadeira, e se aquela garota percebeu meu interesse só podia estar de brincadeira com minha cara. Não gostei da forma que desenrolou, e por que diabos ela me faria o que eu queria depois de receber uma pergunta carregada de idiotice? Não, isso não era algo que eu poderia suportar. Fui embora com sede, com calor, e com a cabeça mais estúpida e quase virando pipoca com aquele calor desgraçado. Ora, que garota mais atrevida!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Rei de Mim.

Costumava ficar andando pelos bares, tomando diferentes doses de diferentes bebidas com diferentes pessoas, acabou a música? Trocava o disco, às vezes inventava canções e cantarolava enquanto bebia.Quase sempre inspirado no quanto minha solidão me era doce, sagrada, única e forçada. Era com certeza o maior rei de si de toda a sociedade moderna decadente e retardada da cidade ensolarada. Às vezes eu costumava sentar em mesa de desconhecidos sem medo da rejeição –em extinção- a vergonha não era minha amiga, água e óleo, nunca combinamos.

Dinheiro no bolso, carteira pra que? Tênis esporte, camisa sem ilustrações e calça jeans, e toda a malícia ríspida na mão direita, seguindo o ritmo daquela micção estúpida chamada sociedade moderna, com suas roupas, seus sapatos, seus sexos a mostra – mas só no carnaval, nele pode – suas traças intestinais cobrindo toda forma de pudor natural, e eu ali. Olhava por cima do ombro sempre que uma nova ‘’bemproduzidagostosaefêmea’’ entrava no bar, cruzava as pernas e deixava meus espíritos malignos seduzirem seu olhar. Incrível, como um pouco de luxuria é realmente POUCO.

Acho que em algumas tarde eu existia, não me recordo bem, mas me lembro vagamente de uma morena dormindo nos meus braços a tarde, acho que é a memória combinando imaginações e fatos de ilusão que presenciei há algum tempo. Verdade, é uma trapaça intelectual, eu realmente só existia a noite.

Meu coração andava por ai, procurando meu peito, e minha cabeça guardava a coroa do meu reino, o reino que a muito não visito, agora sempre vejo o espelho me falando “jamais se livrará das traições que cometeu contra si”.