Primeiro gole. Garotas passam, os garçons esperam por pedidos
e um negro canta num palco improvisado. Esquina pouco movimentada sem bêbados
e boêmios. Na outra mesa uma senhora de uns 50 anos mancha um copo de Uísque de batom vermelho claro. As rugas disfarçadas por uma exagerada quantidade de
maquiagem chamam minha atenção. Fico observando e absorvendo aquela solidão,
sem esquecer que eu também estou só. Segundo gole. Ela tem olhos profundos com
cílios postiços e alguma tristeza camuflada num falso sorriso que distribui a
todos.
O negro para um pouco a música,
ascendo um cigarro barato e cruzo as pernas, inclino meu corpo em direção à senhora e a observo severamente. É
delicioso comer cada detalhe de uma vida estranha, seus anéis em padrões de prata,
sua sandália escondendo um pé envelhecido e duro como os de uma trabalhadora, uma
graciosa mão segura o copo ligeiramente cheio, segurando suave como quem segura
a mão de um amigo durante conversas “amigodivã”. Terceiro gole. Ela levanta,
passa suavemente as mãos na bunda alinhando o vestido justo no corpo conservado
e bem curvado. Ela vai embora, leva consigo os segredos que toda mulher
carrega. Eu volto a minha solidão de olhos cansados (ou bêbados) e choro comigo
mesmo, sem saber a razão, e sem razão nenhuma tomo o quarto e ultimo gole de
minha Cuba Libre e volto a pedir outra dose, ainda estou sóbrio e minha vida
não me é interessante, preciso de uma nova historia, de uma nova leitura de uma
nova obra de arte da vida, de algum personagem bem lapidado como só as mãos da
mais habilidosa artesã – a vida – pode criar. Mais uma dose. O Negro volta a
cantar, e por ironia da solidão a canção também é triste, e só.
